Há essa menina. Quando a vi pela primeira vez, era uma quinta-feira a tarde. Lembro-me porque havia acabado de organizar os livros que chegam sempre ás quartas. Ela entrou olhando ao redor, como se não pudesse esperar e ver cada coisa de uma vez. Mas depois caminhou lentamente por todos os corredores, parando a cada meio passo para apalpar um livro, ler uma sinopse, comparar o tamanho de dois exemplares...
Sei que deveria perguntar do que ela precisava, mas ela andava tão dona de si - como se já soubesse, muito obrigada, o que queria - que fiquei quieto atrás do balcão. Depois de algum tempo, voltei a ler o livro que eu pegara no dia anterior. Vez ou outra, levantava o olhar para ver onde ela estava. Usava um vestido amarelo claro, desses que tem a manga curta e cheia. Tinha os cabelos pretos e presos num coque um pouco bagunçado.
Algum tempo depois, ela se sentou num dos pufes da área infantil com um livro grosso e vermelho em mãos. Quando abaixou a cabeça para ler, sua franja caiu sobre o rosto. Se você a visse, diria que ela não é bonita. Mas ela é, eu soube naquele momento, ela é maravilhosa. E permaneceu praticamente imóvel, a salvo pelas mãos que viravam as páginas. Só se levantou quando comecei a organizar os livros que ficaram foram da estante, para fechar a loja.
Depois daquele dia, ela passou a ir religiosamente todos os dias. Nunca dizia uma palavra: Andava, andava, andava, escolhia um livro e se sentava. Seu coque permanecia o mesmo e seu rosto sereno também, o que mudava era apenas a cor do vestido e o pufe em que sentava. Quando notei que estava prestes a acabar aquele livro, decidi que era hora de perguntar em que eu poderia ajudar.
"Ah, estou esperando. Obrigada." disse com uma voz infantil e voltou para o seu livro. Fui tomado por uma onda de pena e revolta. Não conseguia imaginar porque alguém deixaria uma moça esperando por tanto tempo, e mais de uma vez. Perguntei-me porque ela ainda acreditava que a pessoa chegaria, mas não o disse em voz alta. Em segredo, eu gostava de tê-la ali. Mesmo que não conversássemos nunca, era como se eu soubesse que a qualquer momento aconteceria algo que me faria agradecer por sua existência.
Mas ela terminou aquele livro. E o próximo, e outro depois do próximo... Alguns clientes entravam, compravam e a olhavam com curiosidade. Eu estranhava, porque para mim ela já se tornara parte do cenário. Quando iam crianças na loja, elas brincavam nos outros pufes, corriam e gritavam, mas ela parecia sequer enxergá-los.
Nunca vi alguém que lhe dirigisse a palavra e, depois de algum tempo, quase me esqueci do tom de sua voz.
Devem ter sido seis ou sete livros depois, não tenho certeza, mas numa segunda-feira sentei-me no pufe á sua frente. Pigarreei, chamando a sua atenção, e sorri. Eu não saberia dizer como consegui, mas ela fechou o livro sobre o colo e nós conversamos. No dia seguinte, se repetiu: Ela leu até o momento em que me sentei, depois abandonou o livro e me deu sua atenção.
Ela estava usando um vestido verde-água no dia em que me contou a sua história. É muito bonita, e ela também ficava ainda mais bonita quando falava, porque seus olhos brilhavam. Eu gostaria de contar a você, mas prometi a ela que guardaria segredo. No entanto, posso lhe contar o que ela me disse logo depois que nos beijamos pela primeira vez. "Você demorou".